TEXTOSLUIZ ALBERTO OLIVEIRA

Sobre busca e oferecimento

Contribuição para um debate sobre a obra de Antonio Dias

Um bom modo de começar é recordar um dos começos do Ocidente. Na Teogonia, Hesíodo nos canta como as Musas, as divinas porta-vozes, reivindicam assertivamente tanto o poder de desvelar quanto o de encobrir:

Ó pastores agrestes,
vis infâmias e ventres só!
Sabemos dizer coisas semelhantes à verdade
E sabemos, quando queremos,
Dar a ouvir revelações.


Esse duplo papel, de promotor quer da ilusão mais terrena, quer de uma veracidade para além da história, da ordem do eterno, seria também o da arte. E sob essa perspectiva podemos esboçar uma aproximação à obra de Antonio Dias – de fato, a minúsculos fragmentos dessa obra – como sistema de pensamento.

Vamos, para isso, nos servir de uma figura muitas vezes repetida em seus trabalhos: o retângulo lacunado, um retângulo do qual um quadrado foi retirado de um dos lados [exemplo: The body], e que Antonio ostentou como estandarte até mesmo na zona conflagrada entre Nepal e Tibete; hasteou, como sua bandeira, esse retângulo ao qual falta uma parte.

Essa figura emblemática é, por um lado, um esquema, que pode ser pensado por um viés totalmente abstrato, e, por outro, encontra ao longo da obra de Antonio uma variedade tão grande de formas de concretização, sólidas, líquidas, pastosas, aéreas que pode ser tomada como um corpo-princípio, como uma matriz. Lembramos da antiga e preciosa regra para a obtenção de uma espiral de Fibonacci por uma sucessão de partições áureas: constrói-se um retângulo em que o lado menor está para o maior assim como o maior está para a soma dos dois; repete-se o procedimento no lado menor, e depois no novo retângulo áureo assim produzido, e assim por diante. Essa forma de regular o crescimento, por sucessivos acréscimos, de um dado sistema ou objeto é tão generalizada na Natureza que a encontramos regendo desde a distribuição das sementes na flor do girassol até a conformação do braço da galáxia no qual, por acaso, residimos.

Só que se alguém, como faz Antonio, vaza o retângulo – se retira a parte de um lado e cria uma lacuna –, tem-se agora um problema, pois ao traçar a curva, ela não tem um atrator, não tem um rumo, não tem término; torna-se, portanto, indeterminada. Podemos talvez sondar o sentido desse vazamento problematizador recorrendo a um enunciado do próprio Antonio:

Quero criar um universo dentro do retângulo (...)
nos diz nosso ambicioso demiurgo... e depois,
(...) e depois, para criar uma totalidade, retirar algo desse retângulo.

É essa fratura, essa retirada, que possibilita que o ex-retângulo “extra-vaze” de seus limites, e que surja essa indeterminação que, de alguma maneira, é mais ampla, mais aberta, mais abrangente, por ser vazada. Podemos, aqui, fazer duas considerações: primeiro, supor que Antonio nos propõe, com seu módulo fraturado, a imagem de uma falta: esse módulo quebrado haverá de se repetir sempre e em toda obra ocorrerá uma fenda, uma hiância, um kaos (para voltarmos a Hesíodo), e através desse kaos algo faltará, algo “extra-faltará”.

Tratar-se-ia assim de um módulo para a repetição, para a perpetuação, de uma falta. Mas essa abordagem pode também parecer insatisfatória, na medida em que uma falta, uma reiterada e insistente falta, remete a algo que anteriormente foi pleno, foi íntegro, esteve preenchido. Seria talvez mais desafiador considerar que esse vazamento, essa abertura, apontaria para algo que está para ser preenchido, que o módulo partido não nos traz algo que vem se repetindo desde o passado, mas sugere algo que se repetirá, que reverberará, no futuro.

Pode-se imaginar, no primeiro caso, que o retângulo amputado, em suas inúmeras “re-presentações”, engajaria a proposição de um enigma: uma pergunta perpetuamente inquirida, porque uma unidade primitiva, original, foi quebrada, e desde então um elemento está ausente, um fragmento falta, e precisa ser buscado; assim a Esfinge, a moléstia-enigma, perpetuamente reitera a súplica: dê-me o que me falta, dê-me o que desejo. Mas essa falta e esse desejo são incansáveis, e a falta só pára de faltar, o desejo só cessa de agitar, quando o fragmento faltante é restituído – quando Édipo tem a palavra que resolve o enigma, tem a verdade que restaura a unidade originária perdida. O conceito de enigma, portanto, diz respeito a uma fratura passada, a uma fissura que se repete desde essa fratura, e essa ânsia primitiva tem um fecho, logra um término, alcança uma solução, quando o último fragmento é re-acrescentado.

Mas, talvez se possa também pensar que Antonio nos propõe, na verdade, um labirinto, um problema. Ou seja, o fragmento ausente aponta a constituição de novas unidades, unidades por vir, e nesse caso o que o módulo repetido faz é avançar na construção de algo que ainda não está presente, senão como aura, como possibilidade, como potência do que virá a ser. Seja assim o caso dessas casas cujas duas portas se abrem para lugar nenhum. Segundo a primeira visão, trata-se de um labirinto como dispositivo espacial, um caminho que se percorre e não leva a parte alguma, um dispositivo de fechamento onde não há para aonde ir, onde nem a porta de fora nem a porta de dentro portam lugar algum que não o mesmo nada, a mesma solidão, o mesmo deserto infindo onde se desfaz o onde.

Borges, contudo, nos oferece um outro entendimento do que pode ser um labirinto:

Contam os homens dignos de fé (porém Alá sabe mais) que nos primeiros dias houve um rei das ilhas da Babilônia que reuniu seus arquitetos e magos e ordenou a construção de um labirinto tão perfeito e sutil que os varões mais prudentes não se aventuravam a entrar nele, e os que nele entravam se perdiam. Essa obra era um escândalo, pois a confusão e a maravilha são atitudes próprias de Deus e não dos homens. Com o correr do tempo, chegou à corte um rei dos árabes, e o rei da Babilônia (para zombar da simplicidade de seu hóspede) fez com que ele penetrasse no labirinto, onde vagueou humilhado e confuso até o fim da tarde. Implorou então o socorro divino e encontrou a saída. Seus lábios não pronunciaram nenhuma queixa, mas disse ao rei da Babilônia que tinha na Arábia um labirinto melhor e, se Deus quisesse, lhe daria a conhecer algum dia. Depois regressou à Arábia, juntou seus capitães e alcaides e arrasou os reinos da Babilônia com tão venturoso acerto que derrubou seus castelos, dizimou sua gente e fez prisioneiro o próprio rei. Amarrou-o sobre um camelo veloz e levou-o para o deserto. Cavalgaram três dias, e lhe disse:

“Oh, rei do tempo e substância e símbolo do século, na Babilônia me quiseste perder num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso achou por bem que eu te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que te impeçam os passos”. Em seguida, desatou-lhe as ligaduras e o abandonou no meio do deserto, onde morreu de fome e de sede. A glória esteja com Aquele que não morre.

Um deserto-labirinto; o Vazio como um labirinto; se abrimos o dispositivo, se ele se torna fonte de múltiplas, imprevistas, novas conformações, passamos a compreender o módulo partido como ponto de partida, como um tipo de bifurcação, um operador para a escolha de caminhos possíveis: eis a encruzilhada, pela via da esquerda se vai a Tebas, pela via da direita se chega a Corinto; a bifurcação está ali, está dada, é absolutamente necessária, mas a escolha do viajante é casual, é imprevisível, é absolutamente livre.

O labirinto (e a bifurcação é a unidade elementar, o átomo, de labirinto) nos traz agora a imagem de um dispositivo temporal, de uma passagem do passado para o futuro: a cada ocasião em que uma escolha é feita, ocorre uma seleção, certos futuros permanecem viáveis, outros futuros foram cancelados. Desse modo, bem ao contrário de um meio de fazer voltar – ou fechar – o passado, o módulo realiza a repetição de uma abertura interminável, de uma saída para o futuro; de repetido, torna-se repetidor.

Vemos assim que a razão da permanência desse operador de repetição seria menos assegurar a identidade de Antonio como criador, remetida à origem de seu desejo de criar, e muito mais insinuar um alvo mais difícil, uma causa mais árdua, um ímpeto, uma pulsão, uma compulsão de abrir a obra sempre mais para alguma coisa mais ainda não-presente do que o que está ali. Podemos encontrar essa repetição inovadora em ação também em trabalhos mais recentes de Antonio, nos quais ocorre uma deriva rumo a uma materialidade tão concreta, tão complexa, que chega a ser quase pungente. Vejamos um exemplo: a água. Uma molécula de água é constituída, todos sabemos bem, de dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Menos conhecido é o fato de que, devido ao tipo de ligação química que vigora entre eles, esses átomos adquirem uma forma espacial bem definida: os átomos de hidrogênio se situam de modo a estabelecer entre si um ângulo específico, de cerca de 106,5 graus. Essa relação é característica de toda molécula de água.

Ora, quando acontece de uma dada gotícula de vapor numa nuvem, indistinguível de incontáveis companheiras, ser atingida de súbito por uma lufada de vento frio, algo surpreendente ocorre: como as moléculas de água, que antes deslizavam quase livremente umas sobre as outras nas gotículas, podem se consolidar de incalculáveis maneiras diferentes quando cada gotícula se solidifica, os flocos de neve resultantes exibirão sempre uma assombrosa combinação de um formato-padrão hexagonal, fixo, com ornamentações singulares, únicas, distintas de um floco para o outro. Ou seja, uma combinação de uma necessidade – o formato hexagonal básico que invariavelmente se repete, expressando a identidade angular microscópica comum a todas as moléculas de água, e de um acaso – a ornamentação singular que invariavelmente não se repete, expressando a distribuição relativa das moléculas durante a peculiar circunstância em que sucedeu a cristalização. Uma combinação, em suma, de repetição necessária e casualidade irredutível, pela qual é possível que a uniformidade idêntica das gotículas dê origem à diversidade contingente dos flocos. A encantadora arquitetura da neve é o resultado simultaneamente magnificado e multiplicado da estrutura e da dinâmica moleculares da água.

Contudo, os flocos de neve são bonitos, são encantadores, mas não são belos. Não podem ser; falta-lhes a dimensão propriamente humana, a marca desse ser que avançando sobre o vazio, lançando-se sobre a lacuna, penetrando ali abaixo ainda do que é informe, alcança subjugar novas formas, extrair novos padrões, repartir de novo sempre o tabuleiro e as peças. Quando então Antonio toma novos materiais, grafite, óxido, cobre, ouro, e faz com eles uma integração de heterogêneos, uma unidade híbrida, vemos se transformarem essas densidades, essas asperezas, essas concretudes, em algo que é como um motor de si próprio, como um vento que sopra; somos então levados para além, abre-se dentro de nós a lacuna do labirinto; depois que a obra nos toca, já não somos mais os mesmos. Essa é a potência da mentira da arte: nos enganar de tal modo que saímos do que somos.

Talvez devêssemos assim supor que, ao invés de uma falta, e de uma busca pelo que falta, seria mesmo mais correto denominar de Vazio essa abertura à qual Antonio repetidamente se apresenta e nos apresenta. Porque para se criar um universo dentro de um retângulo é necessário fixar limites, mas quando se fura esses limites, surge o problema, o desafio: o que há fora desse universo? O quê esse furo fura, e para onde esse furo dá?

Se se entende o universo como um Universo, uma totalidade (e decerto toda obra de arte é em si mesma uma pequena totalidade), então o que haveria, o que poderia haver, para fora? Os quartos de argila que corporificam e avolumam o módulo-problema ocultam e sugerem um vínculo, uma dobra: se a função do vazamento for fazer surgir um esvaziamento – deixar entrar e sair o vazio –, então o universo se assemelha a um sistema que é contexto de si próprio; mais exatamente, converte-se em uma totalidade cujo fora é seu próprio vazio interno; um mundo que os limites furados, ao invés de separar o dentro do fora, trazem o fora para dentro do dentro. O kaos pulsa em cada composição, induz cada constelação. Completa-se a incompletude; curvas áureas, ou argênteas, ou brônzeas, ou férreas, compõem formas aformes. O vazado, o Vazio, oferece.

Luiz Alberto Oliveira
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas
Rio de Janeiro, 2007

In Paulo Darzé Galeria de Arte, Salvador, 2007

Bibliografia
Hesíodo. Teogonia. Tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1986.
Borges, Jorge Luís. “Os dois reis e os dois labirintos”. Em O Aleph. São Paulo: Globo, 1997.


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